BARTOLOMEU CAMPOS QUEIRÓS: O NOME - PORTO DE MEMÓRIA, PORTA PARA HISTÓRIAS
Se olho demoradamente para uma palavra descubro, dentro dela, outras tantas palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos.
Bartolomeu Campos Queirós, Diário de Classe
Memorialista e autobiográfica é grande parte da obra do mineiríssimo poeta Bartolomeu Campos Queirós. Preocupado com a formação de um público leitor, Bartolomeu busca, em suas experiências infantis, material para engendrar narrativas que levam seus interlocutores a reflexões sobre leitura (s), sobre identidade(s), sobre jogo (s) de inter-relações, enfim.
Suas memórias de estudante e de educador emergem em Diário de Classe – originallivro de poemas, pois os antropônimos relacionados numa lista de chamada são a fonte de outros nomes que desfilam diante do olhar atento desse artesão de palavras. Os poemas burilados pelas mãos do artista revelam sua “pessoalidade”. A emoção provocada pela leitura das palavras arroladas numa listagem escolar é o mote para o engendramento de histórias, nascidas na memória do narrador/autor.
O nome, é sem dúvida, marca maior de nossa individualidade. Enquanto o menino narrador de Ciganos, livro que inaugura o quadrante memorialista do autor, não é nomeado – não tem, pois, identidade – , o personagem Antônio, de Indez, só pode ser conhecido por seu nome – de batismo – inteiro.
Mesmo tão carinhoso e de doçura transparente ninguém,se arriscava a chamá-lo de Toninho, Tonho ou outro apelido qualquer. Falavam Antônio com a boca cheia.Falavam o nome por inteiro, como que preservando tudo que era dele, sem desejo de reparti-lo em pedaço. (Ind, p.29)
O nome é a memória do ser, de sua existência. Para exemplicar esta marca, o autor de Ler, escrever e fazer conta de cabeça, destaca numa passagem da referida obra essa recorrente preocupação com os nomes. Dona Orozina, a professora do grupo escolar, era amada pelos alunos. Para verificar a freqüência, “chamava o nome por completo, com o pedaço da mãe e o pedaço do pai. Eu me sentia inteiro. Queria ter mais nome, para ela me chamar mais tempo.” (LEFC, p.45).
É em Diário de Classe, no entanto, que os nomes alçam vôo e vão pousar na imaginação do poeta . O nome Osmar, por exemplo, possibilitou o seguinte jogo:
O S M A R
. . M A R
O S . . .
O . . . .
. . . A R
O . . M A R
. . M A
A partir da brincadeira com as letras do nome Osmar, Bartolomeu destaca do acróstico as palavras mar, ar, ... e cria o seguinte poema:
O ouvido chora
se ouve dizer
os mar
Conheço um menino Osmar
e longe, bem longe,
sonho existir o mar!
_ Osmar é um nome
ou um erro de concordância? (DC, p.37)
Para Bartolomeu Campos Queirós, “escrever é dividir-se”, pois “cada palavra descortina um horizonte”. Diríamos que ele divide para poder somar. Divide com o leitor o seu encanto pelo mar – fascínio recorrente, evidenciado no livro Ah! Mar... onde fica claro o jogo de imagens proposto pelo autor, visto que “Longe do mar inventa-se um oceano.” (AM, p.5 ). De posse desse passaporte, o interlocutor penetra no devaneio do poeta que, fortalecido, ao final, direciona o olhar de seu “cúmplice” para a palavra “mar”, que surge plena, absoluta, reforçando a simbologia desse termo: lugar dos nascimentos, das transformações, dos renascimentos.
Nesse poema, aflora de maneira lúdica a preocupação do poeta com a língua . Ele se diz “paciente com a escrita”, modalidade que requer atenção maior, uma vez que as regras gramaticais são mais rigorosas. Atento aos padrões da língua considerada prestigiosa, Bartolomeu sabe que as palavras são “feitas de pedaços” e que “amarrando as letras” (LEFC, p.38) , amarrando as palavras, desamarramos as idéias. Des-cobrir as regras de regência, de concordância; pontuar subitamente; tecer com rigor a rede sintático-semântica confere ao ato de escrever prazer e “dor”.
O prazer de brincar com os nomes é evidente nos textos desse escritor. Esse recurso é bastante utilizado em seus livros. Em Mário, o menino poeta, podemos verificar a junção de três significantes que formam o nome do personagem – MAR/ AR/ RIO . “Mário era feito de águas”. Na água salgada de seu choro, o menino descobria o mar. Na sede, ele encontrava o rio. Por ser água, Mário era também ar, pois " olhava o céu e as nuvens, as plantas e as aves.”, era “peixe e pássaro”.
O jogo, a brincadeira são “germes da imaginação criativa”[1] que se manifestam no contato entre os animais e, principalmente, entre os seres humanos. A brincadeira e o jogo servem para reelaborar criativamente as impressões vividas. É através deste processo que a criança, ao combinar os dados de sua experiência, vai construindo uma nova realidade.
É essa criança, companheira de toda a trajetória da nossa vida adulta, que nos impulsiona e nos ajuda a nutrir a imaginação.
Recordando as histórias de seu avô por parte de pai, Bartolomeu continua percorrendo as trilhas do lúdico e jogando com os substantivos próprios. Os nomes dos personagens que participam desta narrativa demonstram mais uma vez a preocupação com a escolha da palavra “certa”- aquela que abrirá horizontes, trazendo as marcas da memória: individual e coletiva.
Maria da Fé, Maria da Esperança eMaria da Caridade são as irmãs solteironas que freqüentam a igreja, vão à missa aos domingos; são moças de comportamento exemplar. Seus nomes, escolhidos como veículo para transportar a memória religiosa, trazem ao texto um humor sutil, se o leitor tem a posse daquele saber.
Esperança é dos três substantivos o que oferece maior possibilidade de jogo semântico, como podemos constatar nos registros do avô pelas paredes da casa: “Viver sem esperança é como ter casa sem janela.” Ou ainda nas palavras do narrador “Eu sempre ouvia dizer que a Esperança é a última que morre”. Mas nesse episódio das moças, corroendo o adágio popular, Esperança foi a primeira a morrer e suas irmãs “desligaram o rádio e jamais abriram as janelas” (PPP, p. 23).
O jogo prossegue no livro e aparecem Iva e Eva, nomes gêmeos e mínimos que designam duas anãs; Clara e Gema, amigas da avó do menino; Maríliae Dirceu, filhos da professora que falava “sem errar uma palavra, sem deixar para trás erres ou esses”,era a oradora da cidade, discursava para o vigário em dia de aniversário, saudava o prefeito em dia de posse; era mesmo uma pessoa eloqüente e bem informada. Logo, podemos suspeitar que Maríliae Dirceu sejam nomes destacados da obra do ilustre mineiro Tomás Antônio Gonzagapara compor a personagem detentora de um saber conquistado por poucos naquele lugarejo: o saber das palavras, principalmente das palavras escritas.
As palavras, segundo Bartolomeu, são portas e janelas. Os nomes de seus personagens descortinam horizontes, buscados em lembranças de uma infância que ele não quer esquecer. Ainda em Por parte de pai, vale a pena abrir uma porta através do nome do galo. Jeremias é o nome de um dos profetas do Antigo Testamento, significa “Deus restabelece”, aliança com os homens. Seu canto, no entanto é de lamentações, tidas como primorosas. O galo era cego de um olho e “morava num meio-termo... com um olho via a luz com o outro via a noite, eternamente.”(PPP, p.28) . Percebemos uma analogia entre as histórias, pois na do profeta aparece o Senhor que lhe faz a pergunta: “Que vês tu, Jeremias?”. A Bartolomeu interessa essa imagem da visão parcial, reforçando a idéia do ponto de vista, da parcialidade do julgamento. O galo da história tem os dois lados: a visão e a cegueira – o prêmio e o castigo. Ainda observamos nesse episódio uma outra analogia tecida pela memória entre a narrativa de Bartolomeu e a história do profeta Jeremias, pois o avô do menino chama-se Joaquime é ele quem leva o galo à morte num dia de eclipse; no livro do profeta, Joaquim é o nome do rei contra o qual Jeremias se insurge. Para finalizar essa leitura intertextual entre os dois textos, apontamos ainda a vida celibatária de ambos. Jeremias – o profeta – não podia ter mulher e filhos; Jeremias – o galo – não era necessário “para cobrir as galinhas” (p.30) pois já havia outro galo no galinheiro; apenas um era suficiente.
Outros nomes bíblicos vão aparecer no texto, revelando um conhecimento religioso que participa da atividade mnemônica do autor: “alguns diziam que ele [o avô] era um homem com a paciência de Jó. Eu não sabia se Jó era um escravo, amigo de Maria Turum, jogador de caxangá, ou se um compadre de meu avô...” (PPP, p.9). A relação entre Jó – personagem bíblico conhecido por sua capacidade de suportar as provações que o Senhor lhe impingiu – e o “jeito de ser” do avô (paciente) está subentendida. Podemos atribuir uma extensão desse sentido ao nome da rua – Paciência – que se espichava preguiçosa morro abaixo. (PPP, p.7)
Débora é filha de “Dona Bem, vizinha rica que nunca trabalhou na fábrica”. A menina tinha cabelos compridos como os de Madalena; apesar de ser moça prendada, estudiosa, bonita, “era gaga, e não podia ser Verônica” (PPP,p.64). Em outro sentido, não podia ser a imagem verdadeira – vera / eikon – dos retratos da folhinha, já que na procissão, a pecadora canta seu assombro.
E assim caminha a narrativa até que Bartolomeu põe diante do leitor uma crítica aos exageros concebidos pelos puristas que não admitem qualquer forma de estrangeirismo. Dona Marieta, a professora aposentada, segundo contam, exigiu a mudança de nome do noivo Washington para Vasinguitom, pois “o amor de Marieta ao idioma pátrio exigiu a mudança de nome de acordo com a pronúncia.” (p.52).
Ainda que
exaurindo imaginários jamais
desvelaria a Origem
Contudo a minha alma se
alimenta de Palavra
(Esc.)
Palavra é o alimento do qual se nutre o narrador de Escritura, que assume o discurso da História e se justifica pelas falhas ou pela imprecisão de alguns fatos. “Não me pergunte desde quando tudo houve. Eu não estava lá. Sei apenas sopro dessa história...” (Esc.) O que ele sabe chegou-lhe pela palavra adâmica, através da qual a criatura se transforma em criador. Bartolomeu cria um texto para atualizar o episódio da anunciação e nascimento de Cristo. Os nomes José e Maria fazem circular o sagrado. José, conforme nos ensina Antenor Nascentes, tem sua origem em Iavé que significa ajuda. Iavé é aquele que acrescenta. “Ele vai acrescentar à história sagrada um perfil de humanidade” [2], visto que era um homem comum, um simples carpinteiro que “ao contemplar as mãos ásperas pelo martelo, plaina, goiva, se via forte para servir em trabalho”. (idem)
Ana – graça do Senhor –, Gabriel – o anjo das notícias –, Baltazar, Belchior, e Gaspar são outros nomes que ajudam a recontar esta história original.
Da palavra bíblica saem também os nomes dos personagens de Correspondência. Ana escreve uma carta para Mateus e logo uma rede se forma. Seguindo as características do gênero epistolar, Maria, Marcos, Marta,Lucas, Sara, João se correspondem e o circuito se fecha ao final, quando João escreve para Ana, a primeira remetente dessa “corrente” de palavras, cujo objetivo é “acordar” nas pessoas valores adormecidos e construir através da Carta Magna de um país – a Constituição – um Brasil mais justo.
Bartolomeu fala do lugar da criança também em Pedro, menino que tem sua dimensão individual ampliada, pois, ao se referir ao menino nos diferentes idiomas, o poeta demonstra sua intenção de universalizar o personagem. Pierre, Pietro, Peter, Pether, Petrus são designações diferentes para o mesmo referente – um menino, qualquer menino, nascido em qualquer lugar do mundo, que tenha duração, solidez (de pedra) para guardar a imagem do vôo de borboleta e preencher sua solidão.
A posse de um nome é, e tem sido desde tempos imemoriais, privilégio de todo ser humano. ‘Ninguém, de baixa ou alta condição, fica sem nome, uma vez que veio ao mundo.’ (...)
Os nomes para algumas comunidades são ‘dotados de poderes mágicos e rodeados de complicadas superstiçõe e tabus’[3]
No porão da memória ficam guardadas as lembranças que não queremos revelar e os fatos de que nos esquecemos, pois o esquecimento é uma das formas da memória.
Há personagens que atravessam a obra sem que o leitor tome conhecimento de seus nomes; com certeza não houve lapso por parte da capacidade mnemônica de Bartolomeu, mas, muito pelo contrário, revela a clara intenção de preservá-los, de tê-los só para si – como é o caso da mãe – de Antônio ou de todos os outros meninos. Nomeá-la seria dividi-la com seus leitores, seria repartir seu amor com outras pessoas. Em outros termos, o que ele não diz – o nome da mãe – é pleno de significado. Dá exatamente o sentido de posse da outra face secreta de sua memória.
Como pudemos observar neste pequeno recorte da obra de Bartolomeu Campos Queirós, os nomes servem de ancoradouro da memória – social/pessoal. É através dessa estratégia que o autor nos traz a história de uma comunidade simples e contida – pano de fundo das narrativas. Ao nomear personagens, Bartolomeu abre portas para histórias individuais que nos levarão a uma nacionalidade que se abrirá para a universalidade, enfim.
Referências Bibliográficas:
Do autor:
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Ah! Mar... 3 ed. São Paulo: Quinteto Editorial, 1985.
_____. Ciganos. 5 ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1991.
_____. Diário de Classe. 1 ed. São Paulo: Moderna, 1992.
_____. Escritura. 1 ed. São Paulo: Quinteto Editorial, 1990.
_____. Indez. 2 ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1989.
_____. Ler, escrever e fazer conta de cabeça. 1 ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1996.
_____. Mário. 1 ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1982.
_____. Pedro. 9 ed. Belo Horizonte: Miguilim., 1997.
_____. Por parte de pai. 1 ed. Belo Horizonte: RHJ, 1995.
Geral:
GOFF, Jacques Le. História e memória. Trad. Bernardo Leitão [et al.]. São Paulo: Editora
Da UNICAMP, 1990.
LIMA, Ebe Maria de. Literatura sem fronteiras: uma leitura da obra de Bartolomeu Campos Queirós. Belo Horizonte: Miguilim, 1998.
OLIVEIRA, Maria Lilia Simões de. A língua e o discurso da memória: a semântica da Infância revisitada em Bartolomeu Campos Queirós. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UERJ, 1998.
ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Trad. J. A. Osório Mateus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987.